Um dos meus mais queridos professores deu, quatro dias atrás, uma aula muito intensa no conteúdo e na paixão sobre a nossa matéria – o cinema. Uma dessas aulas que proporcionam, finalmente, o feliz encontro com um assunto, autor ou tema que parecem tão distantes de nós, e pelo qual estivemos esperando. Foi assim comigo e com Bergman, hoje nesta aula. E de certa forma também comigo, Truffaut e a aula: um reencontro, sob outro viés ou faceta. Não o Truffaut suave das aventuras de Antoine Doinel que eu já aprendera a amar, mas o crítico incendiário. Igualmente apaixonante, como o cinema.
O fato é que ao fim de uma aula tão cinefílica, inundamo-nos de melancolia. Cadê o Truffaut nos dias de hoje? Não há. E que foi feito da Cahiers Du Cinema? Mesmo a Cahiers, segundo o professor, que ainda é a principal referência de pensamento crítico em publicações sobre cinema, está cada vez mais... vazia? “Indo pro buraco”, disse o professor, não sem um certo ar de bom humor, “como tudo, né”. Como tudo, ecoaram vários alunos.
E eu pensando: pronto. O novo filme de Lars Von Trier tomou conta de nós. Pra quê se importar, então? Tudo indo pro buraco. Truffaut fez com que eu o amasse... para nada? Para quando chegasse a minha vez de pensar, criticar e (quem sabe) fazer filmes, não tivesse mais espaço? Aí que pensei de novo no “ar de bom humor”. O que diabos fazia meu professor, encantado por um primeiro plano, contando da transformação que os críticos da Cahiers propuseram e ousaram alcançar, dizendo em seguida, em aula!, que tudo se vai pelo ralo? (convenhamos também que, diante da crítica atual, pelo menos na que consta na famooosa grande mídia, contra fatos não há argumentos)
Fiquei assim, pensando: pelo menos o cinema ainda é a matéria prima do trabalho dele, ele não pode acreditar tanto assim nessa história de Cahiers buraco abaixo. Aqui está ele, ensinando sobre cinema. Sobre amar o cinema! E concluí que talvez seja para isso mesmo. Pra chegar a nós, assim. Pra deixar uma centelha de vontade, de desejo, de cinema. Que seja. Que o buraco por onde tantas coisas importantes andam entrando é mais embaixo, e que podemos ir mais fundo que o buraco, mais ousados do que ele, e continuar pensando, escrevendo, criando, assistindo. No escuro do cinema.
(escrito sob forte influência do desavisado encontro com jovens turcos e Monika e o Desejo)
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
quinta-feira, 18 de agosto de 2011
terça-feira, 30 de novembro de 2010
Woody Allen

Sabe no cinema, quando o que se diz - as falas, timings, pontuações, entrelinhas do roteiro - e as imagens, planos, cores se encontram? Sabe quando o cinema acontece? Poucas coisas são tão comoventes.
Aí vai um frame de um desses raros momentos, que, não tão raro, Woody Allen sabe construir. Charlotte Rampling encarando-nos através da tela.
E é impossível saber o que é mais lindo: ela, o fato de ela estar mesmo olhando para além da tela, a música, ou a longa e inspirada fala do personagem Sandy nesse exato momento. Na dúvida, o filme sempre vale a pena.
Marcadores:
cinema,
Memórias,
Stardust Memories,
Woody Allen
Um filme que veio da rua
Um filme dirigido pelo artista inglês conhecido como Banksy, grafiteiro e artista de rua mundialmente famoso não apenas pelo seu trabalho incrível e variado, mas também pela introspecção exagerada, afinal ele se recusa a revelar sua identidade, seu rosto e qualquer outro detalhe da sua vida pessoal. Suas obras são o que sabemos dele e o fato de assinar a direção de um filme torna sua persona ainda mais interessante e curiosa. Logo, vindo de quem vem, “Exit Through the Gift Shop” não poderia deixar de ser uma obra de arte absolutamente surpreendente e original.
Banksy, como sabemos, nunca revela seu rosto, mas aparece encoberto falando diretamente com o público desde a primeira cena, supostamente para funcionar como um guia através das reviravoltas que o filme dará. Depois, somos apresentados a um personagem bastante carismático e curioso, Thierry Guetta, um cara que filma tudo o que vê pela frente, obsessivamente. Quando ele descobre a arte de rua e o fascínio que a marginalidade intrínseca a ela exerce, decide filmar diversos artistas de rua em ação para, quem sabe, num dia longínquo, montar um documentário sobre o tema.
O filme se subdivide em diversas camadas, construindo um jogo metalingüístico curiosíssimo, divertido e instigante. “Exit Through the Gift Shop” poderia ser muitos filmes, ao mesmo tempo que é um só. Não é uma obra acabada, característica que partilha com arte que pertence às ruas. O grafite, a pichação, as instalações, performances... Todos eles dependem de certa marginalização e liberdade para existir, e Banksy soube transmitir muito bem essa singularidade da street art pela tela do cinema.
Para além do jogo de espelhos entre personagem/pessoa e realidade/ficção, é impossível ignorar as boas cutucadas que o filme dá no cinema como catalisador da sociedade do espetáculo em que vivemos. Talvez esse seja mesmo o mote de “Exit Through the Gift Shop”, a espetacularização da vida e da arte, e o seu decorrente esvaziamento.
O que Banksy tem para dizer, e é muito difícil fazê-lo sem hipocrisia ou incoerência, é que talvez a marginalização não seja necessária somente para a arte de rua, mas para a arte como um todo. Rotular, divulgar, vender; são verbos que não combinam com nenhum processo criativo. Será?
O próprio Banksy, ao assinar a direção desse filme, gerou o merecido hype que fez as suas três exibições na 34ª Mostra de Cinema de São Paulo, entre outras sessões mundo afora, lotarem. Seu nome (embora ninguém saiba qual é) também virou uma grife, e quem assistir o filme sairá certo de que ele não é ingênuo a ponto de ignorar esse fato, o que não invalida em nada o argumento de “Exit Through The Gift Shop”. Como em seus famosos grafites, crítica social, ironia e humor ácido permeiam todo o filme. É bem por aí, entre o lúdico e o incisivo, que o filme propõe pertinentes e intrigantes reflexões a respeito da arte que se faz nessa tal pós-modernidade em que vivemos.
O pseudo/possível documentário vale também como um dos mais completos e criativos painéis da arte de rua já vistos no cinema. Assistimos a diferentes manifestações artísticas ditas underground sem nem perceber o tempo passar – hipnotizados pela imprevisibilidade dos temas e artistas sensacionais a que somos apresentados.
Banksy fez a proeza de unir num único trabalho uma brincadeira com as tênues e inesgotáveis fronteiras entre ficção e documentário; uma das mais contundentes críticas à mercantilização da arte; um profundo questionamento sobre o que define, afinal, uma obra de arte e, por último, mas não menos importante, um filme muito bom de assistir.
A tradução livre para o título do filme (ainda sem nome oficial em português) seria “saída pela loja”, mas “Exit Through the Gift Shop” passa longe de saídas e traduções fáceis. O filme fura todos os semáforos, vem correndo pelo meio da rua, arromba a porta da frente e não vai mais embora.
Marcadores:
Banksy,
Banksy film,
cinema,
crítica,
grafite,
street art
sábado, 8 de maio de 2010
Tudo pode dar certo com um Woody Allen menos amargo e mais gozador
Se a discussão girar em torno da empatia, Vicky Cristina Barcelona sai disparado na comparação que inventei na minha cabeça entre os últimos cinco filmes de Woody Allen, diretor com quem, e com cujos filmes, estabeleci uma intensa relação afetiva, que talvez me impeçam de ser imparcial, ou, quem sabe, pelo mesmo motivo, não.
(Caso seja a parcialidade a opção vigente nesse momento, minha defesa é que quanto mais estudo jornalismo, menos acredito na imparcialidade do ser humano e, conseqüentemente, do jornalista. Mas essa reflexão não cabe aqui; desviaria do assunto – cinema, e também não teria fim: tenho a impressão de que se seguir, de fato, essa carreira que eu escolhi estudar, vou passar o resto da vida refletindo sobre essa bendita questão/contradição do jornalismo: as tais imparcialidade e objetividade jornalísticas)

Voltando a Woody Allen. Assisti a seu novo filme, Tudo pode dar certo, na sua estréia nos cinemas brasileiros, há uma semana - e não, eu não escrevo estreia corretamente segundo a nova gramática(?).
A impressão que tive, embora não houvesse uma María Elena e um Juan Antonio por quem me apaixonar, é que esse é o melhor filme do diretor desde Match Point. Acho, inclusive, que este último dialoga abertamente com o primeiro desses cinco filmes (Match Point, Scoop, O Sonho de Cassandra, Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo, respectivamente), e talvez isso o enriqueça bastante.
Match Point anuncia desde o título que é um filme sobre a sorte. A referência ao ponto final do jogo de tênis e ao conceito de jogo mesmo, porque em algum momento, em qualquer jogo, a sorte pode mudar a situação, e não importa quanto você tenha se preparado, ou não, para esse momento, ele não depende inteiramente de você. E é exatamente isso que acontece diante de nossos olhos embasbacados em Match Point: um crime hediondo, terrível, desses que acontecem sempre por aí, e somos testemunhas, mas não faz diferença, porque o descuido do autor é o que salva sua pele.
O que temos em Tudo Pode Dar Certo, ou, no original, Whatever Works? Um brilhante físico quase ganhador do Nobel que, pelo amor de deus, perto do Alvy Singer de Annie Hall ou mesmo do Dobel, no mais recente Igual a Tudo na Vida, é um louco desvairado e que, ainda por cima, canta parabéns-à-você enquanto lava as mãos. Nem preciso, mas vou dizer: Larry David é o grande responsável por esse personagem, perdoem o trocadilho, dar tão certo. O cara ligou as neuroses do Woody Allen nos 220!
Esse homem, Boris Yellnikoff, acha a vida previsível e desprezível, porque, no fim das contas, todos vamos morrer, e cada vez que ele se lembra disso é um deus-nos-acuda, para ele e para todos os outros personagens do filme, menos para nós, felizes espectadores, de cuja presença, aliás, ele é consciente. Mas a verdade é que ele não contava com a aparição de Evan Rachel Wood (que, na minha opinião de menininha-quase-da-idade-dela, é sensacional) interpretando Melody St. Anne Celestine, moça fugida do interior, extremamente religiosa e conservadora, que se apaixona por ele.
Era tudo que ele não queria, mas daí pra frente qualquer coisa pode acontecer e acontece. Se Boris jamais imaginaria conhecer Melody, imagine o que acontece quando nos deparamos com a mãe dela, vivida por uma Patrícia Clarkson (saída diretamente de Vicky Cristina Barcelona?) maravilhosamente louca?
Porém, por trás do imprevisível, ainda há Nova York, pelos olhos do diretor e do seu rabuegnto alter-ego, os monólogos calçadas afora, o jazz, o Central Park, as reflexões e as piadas, e já nem sabemos mais qual é qual.
Pensando bem, não é só com Match Point que Tudo Pode Dar Certo conversa, em Vicky Cristina Barcelona há a celebração da vida e do amor, sem convenções e aparências que também aparece nesse filme. Em Annie Hall, o protagonista já fazia reflexões mirando a tela como se nós, do outro lado dela, estivéssemos ouvindo (e não e que estamos?).
Mas acho que gostei muito da relação entre Match Point e este último filme porque, comparado ao primeiro, Woody Allen aparece menos pessimista agora, embora continue debatendo os mesmos temas.
Amargo e dramático ou divertido e gozador, ele continua falando sobre as mesmas coisas, mas eu realmente acho isso fantástico, porque sua obra é fiel ao que ele pensa e sente em relação ao mundo, e nos permite observar a vida junto com ele, através de seus filmes. Mais fantástico ainda é que da mesma forma que saímos destruídos de Match Point por conta da inevitabilidade da sorte e das circunstâncias, quando a inverossímil história de Boris termina, sabemos que, de algum jeito, tudo pode dar certo.
(Caso seja a parcialidade a opção vigente nesse momento, minha defesa é que quanto mais estudo jornalismo, menos acredito na imparcialidade do ser humano e, conseqüentemente, do jornalista. Mas essa reflexão não cabe aqui; desviaria do assunto – cinema, e também não teria fim: tenho a impressão de que se seguir, de fato, essa carreira que eu escolhi estudar, vou passar o resto da vida refletindo sobre essa bendita questão/contradição do jornalismo: as tais imparcialidade e objetividade jornalísticas)

Voltando a Woody Allen. Assisti a seu novo filme, Tudo pode dar certo, na sua estréia nos cinemas brasileiros, há uma semana - e não, eu não escrevo estreia corretamente segundo a nova gramática(?).
A impressão que tive, embora não houvesse uma María Elena e um Juan Antonio por quem me apaixonar, é que esse é o melhor filme do diretor desde Match Point. Acho, inclusive, que este último dialoga abertamente com o primeiro desses cinco filmes (Match Point, Scoop, O Sonho de Cassandra, Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo, respectivamente), e talvez isso o enriqueça bastante.
Match Point anuncia desde o título que é um filme sobre a sorte. A referência ao ponto final do jogo de tênis e ao conceito de jogo mesmo, porque em algum momento, em qualquer jogo, a sorte pode mudar a situação, e não importa quanto você tenha se preparado, ou não, para esse momento, ele não depende inteiramente de você. E é exatamente isso que acontece diante de nossos olhos embasbacados em Match Point: um crime hediondo, terrível, desses que acontecem sempre por aí, e somos testemunhas, mas não faz diferença, porque o descuido do autor é o que salva sua pele.
O que temos em Tudo Pode Dar Certo, ou, no original, Whatever Works? Um brilhante físico quase ganhador do Nobel que, pelo amor de deus, perto do Alvy Singer de Annie Hall ou mesmo do Dobel, no mais recente Igual a Tudo na Vida, é um louco desvairado e que, ainda por cima, canta parabéns-à-você enquanto lava as mãos. Nem preciso, mas vou dizer: Larry David é o grande responsável por esse personagem, perdoem o trocadilho, dar tão certo. O cara ligou as neuroses do Woody Allen nos 220!
Esse homem, Boris Yellnikoff, acha a vida previsível e desprezível, porque, no fim das contas, todos vamos morrer, e cada vez que ele se lembra disso é um deus-nos-acuda, para ele e para todos os outros personagens do filme, menos para nós, felizes espectadores, de cuja presença, aliás, ele é consciente. Mas a verdade é que ele não contava com a aparição de Evan Rachel Wood (que, na minha opinião de menininha-quase-da-idade-dela, é sensacional) interpretando Melody St. Anne Celestine, moça fugida do interior, extremamente religiosa e conservadora, que se apaixona por ele.
Era tudo que ele não queria, mas daí pra frente qualquer coisa pode acontecer e acontece. Se Boris jamais imaginaria conhecer Melody, imagine o que acontece quando nos deparamos com a mãe dela, vivida por uma Patrícia Clarkson (saída diretamente de Vicky Cristina Barcelona?) maravilhosamente louca?
Porém, por trás do imprevisível, ainda há Nova York, pelos olhos do diretor e do seu rabuegnto alter-ego, os monólogos calçadas afora, o jazz, o Central Park, as reflexões e as piadas, e já nem sabemos mais qual é qual.
Pensando bem, não é só com Match Point que Tudo Pode Dar Certo conversa, em Vicky Cristina Barcelona há a celebração da vida e do amor, sem convenções e aparências que também aparece nesse filme. Em Annie Hall, o protagonista já fazia reflexões mirando a tela como se nós, do outro lado dela, estivéssemos ouvindo (e não e que estamos?).
Mas acho que gostei muito da relação entre Match Point e este último filme porque, comparado ao primeiro, Woody Allen aparece menos pessimista agora, embora continue debatendo os mesmos temas.
Amargo e dramático ou divertido e gozador, ele continua falando sobre as mesmas coisas, mas eu realmente acho isso fantástico, porque sua obra é fiel ao que ele pensa e sente em relação ao mundo, e nos permite observar a vida junto com ele, através de seus filmes. Mais fantástico ainda é que da mesma forma que saímos destruídos de Match Point por conta da inevitabilidade da sorte e das circunstâncias, quando a inverossímil história de Boris termina, sabemos que, de algum jeito, tudo pode dar certo.
Marcadores:
cinema,
Evan Rachel Wood,
jazz,
Larry David,
Match Point,
Tudo pode dar certo,
Vicky Cristina Barcelona,
Woody Allen
sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010
O Mistério do Samba

“O samba, na realidade, não vem do morro, nem lá da cidade”
Esse verso de Noel Rosa encerra em si o mistério do samba, nome do filme que registra/recupera (ou talvez só preste mesmo muita atenção) o cotidiano da velha guarda da Portela, no pequeno bairro de Oswaldo Cruz, no Rio.
E pode-se dizer que esse mistério se apresenta lindamente ao longo dos 90 minutos de filme, nos enquadramentos que mais parecem retratos do colorido dia-a-dia de Oswaldo Cruz e, por que não, do próprio samba, que chega para mostrar que não é somente um retrato/registro o que se vê. O samba penetra em nós, alegre, triste, não importa, vai se adentrando e quando nos damos conta, estamos encharcados de samba e azuis de Portela.
Casquinha, Manacea, Jair do Cavaquinho, Tia Doca e outros nomes que podemos até não conhecer, mas que soam estranhamente familiares; é a velha guarda, e dessa já ouvimos falar, e que, de fato velha, não perdeu o ritmo.
Ser tragado pelo samba em tão boa companhia é muito mais fácil, prazeroso e emocionante do que podemos imaginar, principalmente quando somos conduzidos pela voz e a presença de veludo de Marisa Monte junto com Paulinhoda Viola na tela, e por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor nas câmeras, que parecem, de fato, procurar desvendar o tal mistério em cada plano e em cada personagem que encontram nas esquinas de Oswaldo Cruz.
Já Marisa, que aparece durante quase todo o tempo, caminha por entre as cenas exalando prazer e intimidade com as pequenas histórias e personagens que emergem aqui e ali, sempre da mesma fonte: o samba, protagonista por excelência.
Observando atentamente o bairro de Oswaldo Cruz durante o filme ou a descrição de outros lugares ligados ao ritmo em algumas composições famosas, tais como Feitiço da Vila, para citar Noel Rosa novamente, ou Estácio, Holly Estácio de Luiz Melodia, é possível perceber as questões sociais que foram matéria-prima da origem do samba como ritmo e manifestação cultural, mas também tema recorrente de diversas canções.
É isso o que há de mais bonito no filme, e na intenção de realizá-lo: a reunião de histórias que se constroem a partir desse ritmo essencialmente brasileiro, ou ainda os vestígios da História que se pode encontrar nele.
O mais interessante é que o filme não foi montado para ser assistido apenas como essa reunião; é um processo de busca, de descoberta mesmo, conduzido com muito deleite por seus realizadores, o que o torna ainda mais cativante, e de repente nos percebemos parte dessa busca, que também é um encontro.
Assim, O Mistério do Samba extrapola os limites e os efeitos de um registro documental, pois o mistério transpõe a tela, através da música, e nos lembra que a arte precisa da busca e do encontro para acontecer.
Marcadores:
cinema,
Marisa Monte,
música,
Noel Rosa,
O mistério do Samba,
Portela,
samba
terça-feira, 25 de agosto de 2009
quinta-feira, 28 de maio de 2009
"Just a little while back, just before I died in fact. I was on the operating table and I was searching to try to find something to hang onto, you know, cause when you're dying your life really does become very authentic and I was reaching for something to give my life meaning and a memory flashed through my mind: It was one of those great spring days, it was Sunday, and you knew summer would be coming soon. And I remember that morning Dorrie and I had gone for a walk in the park and come back to the apartment. We were just sort of sitting around and I put on a record of Louie Armstrong which was music I grew up with and it was very, very pretty, and I happened to glance over and I saw Dorrie sitting there. And I remember thinking to myself how terrific she was and how much I loved her. And I don't know, I guess it was a combination of everything, the sound of the music, and the breeze, and how beautiful Dorrie looked to me and for one brief moment everything just seemed to come together perfectly and I felt happy, almost indestructible in a way. It's funny, that simple little moment of contact moved me in a very, very profound way."
Woody Allen.
Essa frase é de um filme menos... conhecido e reconhecido dele: Memórias. O roteiro é totalmente Woody, claro. E... é inacreditável como alguém consegue descrever um momento com tanta beleza e precisão. Mais bonito que isso só a cena em que o personagem Sandy faz esse discurso: Charlotte Rampling encarando-nos através da tela. Mais bonito que isso, vide Memórias, só a vida.
quarta-feira, 20 de maio de 2009
Woody Allen apetitoso
Em Vicky Cristina Barcelona, Woody Allen desconstrói dois dos principais paradigmas do amor no mundo moderno através das personagens de Vicky e Cristina, e romantiza uma relação doentia como a de Juan Antonio e María Elena a tal ponto que a gente quase quer ser María Elena, e o público ainda sai do cinema totalmente apaixonado. Pelo filme, pela vida, pelo namorado, pelo cinema, sei lá. Mas que a gente sai inebriado sai. Um filme que faz isso a nós merece ser assistido, re-assistido, pensado, deliciado.
Embora questione com muita acidez o amor, cada momento do filme, repleto de uma música viva, que emociona até os personagens, as cores dignas de um filme do Almodóvar (na terra do Almodóvar!), o convite sedutor de Juan Antonio... tudo nele transborda sentimento.
Saímos do filme sabendo que desejar é muito bom. Que tentar é melhor ainda. Melhor ainda se for à margem da hipocrisia e arrogância burguesas representadas pelas duas personagens título, ou de qualquer outro pré-conceito. Em Barcelona, então, nossa! Se tiver amor, aí, então, nem precisa ser em Barcelona. E a vida, vibrantemente homenageada no filme, não importando as circunstâncias, é a cereja do bolo (delicioso) que Woody Allen nos joga na cara, sem prato nem bandeja.
Embora questione com muita acidez o amor, cada momento do filme, repleto de uma música viva, que emociona até os personagens, as cores dignas de um filme do Almodóvar (na terra do Almodóvar!), o convite sedutor de Juan Antonio... tudo nele transborda sentimento.
Saímos do filme sabendo que desejar é muito bom. Que tentar é melhor ainda. Melhor ainda se for à margem da hipocrisia e arrogância burguesas representadas pelas duas personagens título, ou de qualquer outro pré-conceito. Em Barcelona, então, nossa! Se tiver amor, aí, então, nem precisa ser em Barcelona. E a vida, vibrantemente homenageada no filme, não importando as circunstâncias, é a cereja do bolo (delicioso) que Woody Allen nos joga na cara, sem prato nem bandeja.
Marcadores:
cinema,
Vicky Cristina Barcelona,
Woody Allen
Assinar:
Postagens (Atom)
