terça-feira, 30 de novembro de 2010

Woody Allen



Sabe no cinema, quando o que se diz - as falas, timings, pontuações, entrelinhas do roteiro - e as imagens, planos, cores se encontram? Sabe quando o cinema acontece? Poucas coisas são tão comoventes.

Aí vai um frame de um desses raros momentos, que, não tão raro, Woody Allen sabe construir. Charlotte Rampling encarando-nos através da tela.

E é impossível saber o que é mais lindo: ela, o fato de ela estar mesmo olhando para além da tela, a música, ou a longa e inspirada fala do personagem Sandy nesse exato momento. Na dúvida, o filme sempre vale a pena.

Um filme que veio da rua

Um filme dirigido pelo artista inglês conhecido como Banksy, grafiteiro e artista de rua mundialmente famoso não apenas pelo seu trabalho incrível e variado, mas também pela introspecção exagerada, afinal ele se recusa a revelar sua identidade, seu rosto e qualquer outro detalhe da sua vida pessoal.

Suas obras são o que sabemos dele e o fato de assinar a direção de um filme torna sua persona ainda mais interessante e curiosa. Logo, vindo de quem vem, “Exit Through the Gift Shop” não poderia deixar de ser uma obra de arte absolutamente surpreendente e original.

Banksy, como sabemos, nunca revela seu rosto, mas aparece encoberto falando diretamente com o público desde a primeira cena, supostamente para funcionar como um guia através das reviravoltas que o filme dará. Depois, somos apresentados a um personagem bastante carismático e curioso, Thierry Guetta, um cara que filma tudo o que vê pela frente, obsessivamente. Quando ele descobre a arte de rua e o fascínio que a marginalidade intrínseca a ela exerce, decide filmar diversos artistas de rua em ação para, quem sabe, num dia longínquo, montar um documentário sobre o tema.

O filme se subdivide em diversas camadas, construindo um jogo metalingüístico curiosíssimo, divertido e instigante. “Exit Through the Gift Shop” poderia ser muitos filmes, ao mesmo tempo que é um só. Não é uma obra acabada, característica que partilha com arte que pertence às ruas. O grafite, a pichação, as instalações, performances... Todos eles dependem de certa marginalização e liberdade para existir, e Banksy soube transmitir muito bem essa singularidade da street art pela tela do cinema.

Para além do jogo de espelhos entre personagem/pessoa e realidade/ficção, é impossível ignorar as boas cutucadas que o filme dá no cinema como catalisador da sociedade do espetáculo em que vivemos. Talvez esse seja mesmo o mote de “Exit Through the Gift Shop”, a espetacularização da vida e da arte, e o seu decorrente esvaziamento.

O que Banksy tem para dizer, e é muito difícil fazê-lo sem hipocrisia ou incoerência, é que talvez a marginalização não seja necessária somente para a arte de rua, mas para a arte como um todo. Rotular, divulgar, vender; são verbos que não combinam com nenhum processo criativo. Será?

O próprio Banksy, ao assinar a direção desse filme, gerou o merecido hype que fez as suas três exibições na 34ª Mostra de Cinema de São Paulo, entre outras sessões mundo afora, lotarem. Seu nome (embora ninguém saiba qual é) também virou uma grife, e quem assistir o filme sairá certo de que ele não é ingênuo a ponto de ignorar esse fato, o que não invalida em nada o argumento de “Exit Through The Gift Shop”. Como em seus famosos grafites, crítica social, ironia e humor ácido permeiam todo o filme. É bem por aí, entre o lúdico e o incisivo, que o filme propõe pertinentes e intrigantes reflexões a respeito da arte que se faz nessa tal pós-modernidade em que vivemos.

O pseudo/possível documentário vale também como um dos mais completos e criativos painéis da arte de rua já vistos no cinema. Assistimos a diferentes manifestações artísticas ditas underground sem nem perceber o tempo passar – hipnotizados pela imprevisibilidade dos temas e artistas sensacionais a que somos apresentados.
Banksy fez a proeza de unir num único trabalho uma brincadeira com as tênues e inesgotáveis fronteiras entre ficção e documentário; uma das mais contundentes críticas à mercantilização da arte; um profundo questionamento sobre o que define, afinal, uma obra de arte e, por último, mas não menos importante, um filme muito bom de assistir.

A tradução livre para o título do filme (ainda sem nome oficial em português) seria “saída pela loja”, mas “Exit Through the Gift Shop” passa longe de saídas e traduções fáceis. O filme fura todos os semáforos, vem correndo pelo meio da rua, arromba a porta da frente e não vai mais embora.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

"From which poem are these?" - "Yours"

Bright star, would I were stedfast as thou art--
Not in lone splendour hung aloft the night
And watching, with eternal lids apart,
Like nature's patient, sleepless Eremite,
The moving waters at their priestlike task
Of pure ablution round earth's human shores,
Or gazing on the new soft-fallen mask
Of snow upon the mountains and the moors--
No--yet still stedfast, still unchangeable,
Pillow'd upon my fair love's ripening breast,
To feel for ever its soft fall and swell,
Awake for ever in a sweet unrest,
Still, still to hear her tender-taken breath,
And so live ever--or else swoon to death.


John Keats

*



Jane Campion

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Tinha um muro

Antigamente, tinha um muro. Era fácil: ou pulava prum lado.
Ou fincava os pés, as pernas e todo o corpo na terra e na lama do lado oposto.
Sustentando a si mesmo. E ao outro.

Não tem mais muro pra pular nem sustentar. O desafio não é o muro, é o pulo.
E agora?

sábado, 8 de maio de 2010

Tudo pode dar certo com um Woody Allen menos amargo e mais gozador

Se a discussão girar em torno da empatia, Vicky Cristina Barcelona sai disparado na comparação que inventei na minha cabeça entre os últimos cinco filmes de Woody Allen, diretor com quem, e com cujos filmes, estabeleci uma intensa relação afetiva, que talvez me impeçam de ser imparcial, ou, quem sabe, pelo mesmo motivo, não.

(Caso seja a parcialidade a opção vigente nesse momento, minha defesa é que quanto mais estudo jornalismo, menos acredito na imparcialidade do ser humano e, conseqüentemente, do jornalista. Mas essa reflexão não cabe aqui; desviaria do assunto – cinema, e também não teria fim: tenho a impressão de que se seguir, de fato, essa carreira que eu escolhi estudar, vou passar o resto da vida refletindo sobre essa bendita questão/contradição do jornalismo: as tais imparcialidade e objetividade jornalísticas)




Voltando a Woody Allen. Assisti a seu novo filme, Tudo pode dar certo, na sua estréia nos cinemas brasileiros, há uma semana - e não, eu não escrevo estreia corretamente segundo a nova gramática(?).

A impressão que tive, embora não houvesse uma María Elena e um Juan Antonio por quem me apaixonar, é que esse é o melhor filme do diretor desde Match Point. Acho, inclusive, que este último dialoga abertamente com o primeiro desses cinco filmes (Match Point, Scoop, O Sonho de Cassandra, Vicky Cristina Barcelona e Tudo Pode Dar Certo, respectivamente), e talvez isso o enriqueça bastante.

Match Point anuncia desde o título que é um filme sobre a sorte. A referência ao ponto final do jogo de tênis e ao conceito de jogo mesmo, porque em algum momento, em qualquer jogo, a sorte pode mudar a situação, e não importa quanto você tenha se preparado, ou não, para esse momento, ele não depende inteiramente de você. E é exatamente isso que acontece diante de nossos olhos embasbacados em Match Point: um crime hediondo, terrível, desses que acontecem sempre por aí, e somos testemunhas, mas não faz diferença, porque o descuido do autor é o que salva sua pele.

O que temos em Tudo Pode Dar Certo, ou, no original, Whatever Works? Um brilhante físico quase ganhador do Nobel que, pelo amor de deus, perto do Alvy Singer de Annie Hall ou mesmo do Dobel, no mais recente Igual a Tudo na Vida, é um louco desvairado e que, ainda por cima, canta parabéns-à-você enquanto lava as mãos. Nem preciso, mas vou dizer: Larry David é o grande responsável por esse personagem, perdoem o trocadilho, dar tão certo. O cara ligou as neuroses do Woody Allen nos 220!

Esse homem, Boris Yellnikoff, acha a vida previsível e desprezível, porque, no fim das contas, todos vamos morrer, e cada vez que ele se lembra disso é um deus-nos-acuda, para ele e para todos os outros personagens do filme, menos para nós, felizes espectadores, de cuja presença, aliás, ele é consciente. Mas a verdade é que ele não contava com a aparição de Evan Rachel Wood (que, na minha opinião de menininha-quase-da-idade-dela, é sensacional) interpretando Melody St. Anne Celestine, moça fugida do interior, extremamente religiosa e conservadora, que se apaixona por ele.

Era tudo que ele não queria, mas daí pra frente qualquer coisa pode acontecer e acontece. Se Boris jamais imaginaria conhecer Melody, imagine o que acontece quando nos deparamos com a mãe dela, vivida por uma Patrícia Clarkson (saída diretamente de Vicky Cristina Barcelona?) maravilhosamente louca?

Porém, por trás do imprevisível, ainda há Nova York, pelos olhos do diretor e do seu rabuegnto alter-ego, os monólogos calçadas afora, o jazz, o Central Park, as reflexões e as piadas, e já nem sabemos mais qual é qual.

Pensando bem, não é só com Match Point que Tudo Pode Dar Certo conversa, em Vicky Cristina Barcelona há a celebração da vida e do amor, sem convenções e aparências que também aparece nesse filme. Em Annie Hall, o protagonista já fazia reflexões mirando a tela como se nós, do outro lado dela, estivéssemos ouvindo (e não e que estamos?).
Mas acho que gostei muito da relação entre Match Point e este último filme porque, comparado ao primeiro, Woody Allen aparece menos pessimista agora, embora continue debatendo os mesmos temas.

Amargo e dramático ou divertido e gozador, ele continua falando sobre as mesmas coisas, mas eu realmente acho isso fantástico, porque sua obra é fiel ao que ele pensa e sente em relação ao mundo, e nos permite observar a vida junto com ele, através de seus filmes. Mais fantástico ainda é que da mesma forma que saímos destruídos de Match Point por conta da inevitabilidade da sorte e das circunstâncias, quando a inverossímil história de Boris termina, sabemos que, de algum jeito, tudo pode dar certo.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

http://twitter.com/lettertomandela

Mandela,

When I read or listen to your name, I can see it inspires a mix of strenght, peace and hope. I recently watched Clint Eastwood film, "Invictus", and I couldn't help admiring you even more. Again, this sensation or inspiration of strenght, peace and hope grows inside everywhere your story has been told.
Your story, which is irrevogably and beautifully attached to Africa's history. Thank you, Mandela. Thank you for this attachement that brought hope to a place that looks so hopeless like Africa. Because of you, we know that this it's not true. Thank you, because now and then, you bring hope to the rest of the world.
Anyway, you bring hope for me. Here, in Brasil, so distant from South Africa, and yet so close. Thak you, Mandela.

Nevermind I never met you, I will never forget you.

Beatriz

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

O Mistério do Samba


“O samba, na realidade, não vem do morro, nem lá da cidade”


Esse verso de Noel Rosa encerra em si o mistério do samba, nome do filme que registra/recupera (ou talvez só preste mesmo muita atenção) o cotidiano da velha guarda da Portela, no pequeno bairro de Oswaldo Cruz, no Rio.

E pode-se dizer que esse mistério se apresenta lindamente ao longo dos 90 minutos de filme, nos enquadramentos que mais parecem retratos do colorido dia-a-dia de Oswaldo Cruz e, por que não, do próprio samba, que chega para mostrar que não é somente um retrato/registro o que se vê. O samba penetra em nós, alegre, triste, não importa, vai se adentrando e quando nos damos conta, estamos encharcados de samba e azuis de Portela.

Casquinha, Manacea, Jair do Cavaquinho, Tia Doca e outros nomes que podemos até não conhecer, mas que soam estranhamente familiares; é a velha guarda, e dessa já ouvimos falar, e que, de fato velha, não perdeu o ritmo.

Ser tragado pelo samba em tão boa companhia é muito mais fácil, prazeroso e emocionante do que podemos imaginar, principalmente quando somos conduzidos pela voz e a presença de veludo de Marisa Monte junto com Paulinhoda Viola na tela, e por Lula Buarque de Hollanda e Carolina Jabor nas câmeras, que parecem, de fato, procurar desvendar o tal mistério em cada plano e em cada personagem que encontram nas esquinas de Oswaldo Cruz.
Já Marisa, que aparece durante quase todo o tempo, caminha por entre as cenas exalando prazer e intimidade com as pequenas histórias e personagens que emergem aqui e ali, sempre da mesma fonte: o samba, protagonista por excelência.

Observando atentamente o bairro de Oswaldo Cruz durante o filme ou a descrição de outros lugares ligados ao ritmo em algumas composições famosas, tais como Feitiço da Vila, para citar Noel Rosa novamente, ou Estácio, Holly Estácio de Luiz Melodia, é possível perceber as questões sociais que foram matéria-prima da origem do samba como ritmo e manifestação cultural, mas também tema recorrente de diversas canções.

É isso o que há de mais bonito no filme, e na intenção de realizá-lo: a reunião de histórias que se constroem a partir desse ritmo essencialmente brasileiro, ou ainda os vestígios da História que se pode encontrar nele.

O mais interessante é que o filme não foi montado para ser assistido apenas como essa reunião; é um processo de busca, de descoberta mesmo, conduzido com muito deleite por seus realizadores, o que o torna ainda mais cativante, e de repente nos percebemos parte dessa busca, que também é um encontro.
Assim, O Mistério do Samba extrapola os limites e os efeitos de um registro documental, pois o mistério transpõe a tela, através da música, e nos lembra que a arte precisa da busca e do encontro para acontecer.

domingo, 29 de novembro de 2009

I'm amazed

Sugestão do meu tio e padrinho querido, cujo bom gosto me influencia todos os dias:

http://colunas.epoca.globo.com/pelomundo/2009/11/25/a-musica-pela-qual-paul-mccartney-gostaria-de-ser-lembrado-no-futuro/

E que texto bonito, preciso, sincero. Dá até vontade de ser jornalista!

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Extraviados

Cara, me deu uma saudade do James Dean!
Aonde foram os rebels (with or) without a cause?

E a juventude de hoje (é, nozes), tão transviada e quase sempre tão mais velha que nossos velhos; aqueles que souberam ser jovens.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Espécie endêmica

Onde já se viu um lugar desses?

Onde você pode ser filho de Iansã, ir na igreja aos domingos e falar do mármore do inferno?

Onde dizem que é feio o presidente errar vocabulário, achando que é os professô erudito que têm que governa nóis. Nóis na fita, tudo mambembe. E os excelentíssimos eruditos argumentano que a língua falada pelo presidente é tão brasileira quanto a que eles falam, ou inté mais!

Onde a gente vai até a Daslu comprar biquíni pra nadar nas águas, (cheias) de graça, da Bahia.

E onde têm até judeu que nem sabe que é judeu!, mas ainda acaba se apaixonado pelo olhar penetrante de sombrancelhas grossas das descendentes de libaneses.
Aí já viu: casam, e nunca é que vão atinar que fizeram o maior Romeu e Julieta.

É, aqui tem Julieta e tem Romeu, mas tirando isso, brasileiro é um bicho muito do estranho. E do bom.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Michael Jackson na sala São Paulo?

Seria legal, mas não é bem isso.
Parece que o vereador Agnaldo Timóteo está preocupado com a memória do rei do pop e com o nome redundante da sala supracitada.
Segue aqui sua brilhante idéia, já encaminhada para o prefeito Kassab:
http://juliapetit.com.br/musica/polemica-5/

Até pro Michael é demais.

quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Essa é pra te agradecer

pelo momento mágico, pelo tempo perdido e parado que eu dediquei às suas memórias. Através delas atingi(mos) outras. Outras, outras, outras coisas, pessoas, palavras, memórias, momentos, humanos. Não duvide de mim, nessas horas eu não duvido de você. Em outras sim, admito, mas também a dúvida é humana. Mas eu sei que você gosta de lembrar daquilo que é humano. Humano-te, e sei também que pra você isso é o maior dos elogios.

Mário

"O amor deve nascer de correspondências, de excelências interiores. Espirituais, pensava. Os dois se sentem bem juntos. A vida se aproxima. Repartem-na, pois quatro ombros podem mais que dois".

Amar, verbo intransitivo - Mário de Andrade

terça-feira, 25 de agosto de 2009

la vita non è dolce? - Federico, Marcello, Sofia

Todos estamos À Deriva

O novo filme de Heitor Dhalia aparenta ser muito diferente de seu trabalho anterior, O Cheiro do Ralo, que era, literalmente, um filme estranho de gente esquisita. Numa atmosfera suja e degradante, Dhalia construiu um universo de personagens ricos aos quais, embora nos pareça muito difícil no início, acabamos nos afeiçoando.

Em À Deriva, o diretor vai pelo caminho oposto. Na bela paisagem de Búzios, ele constrói um filme solar sobre uma família em férias de verão. Ou não. Aos poucos, os curiosos enquadramentos que buscam sempre os detalhes das cenas quase sempre luminosas revelam o que há nas sombras.
Nesse aspecto talvez resida o principal defeito do filme; o “comportamento” da câmera não se justifica em momento algum, e soa por vezes arrogante, com as trepidações e os enquadramentos inusitados. Mas ao vermos a menina Felipa descobrindo através deles a inevitabilidade do fim do casamento de seus pais e da chegada do mundo adulto com tanto sentimento, como o faz a atriz estreante (descoberta pelo Orkut!) Laura Neiva, é muito fácil ignorar qualquer defeito.

Perdida nesse universo de inevitabilidades, Felipa é a responsável pela sensação que permeia toda a película e, também, pelo seu título. Todos estamos à deriva. Aos poucos, suas angústias tomam conta da tela, conduzindo-nos às de todos os outros personagens. Vincent Cassel, ótimo pai, porém infiel à mulher, Débora Bloch, que está linda e honesta em seu papel, e até os irmãos mais novos da menina estão imersos na crise que se instala à volta deles.

Tanto na primeira quanto na última cena, ambas dentro d’água, a idéia de que estamos vagando, ora imersos, ora na superfície de nós mesmos e do mundo a nossa volta, soa mais bela e reconfortante, e até desejável. Há inúmeras direções que se pode tomar, tanto para melhor quanto para pior, e todas elas estão transbordando de mar.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

"Careers are a 20th century invention and I don't want one"

Uma fala do filme Na Natureza Selvagem (é sempre sobre cinema). Mas a grande questão, no momento, é: I don't want one? É possível não saber? É, eu não sei.

Na faculdade, às vezes sinto inveja dos ternos ambulantes dos alunos de Direito, como se, através deles, reafirmassem a certeza de seu futuro, e do sucesso dele. É uma ilusão, sem dúvidas, e Chris, personagem da história real que deu origem ao filme, tinha isso bem claro em sua cabeça. Mas a verdade é que também não acho que a resposta esteja na natureza selvagem. Há carreiras e, principalmente, personagens de carreiras, aqueles que construíram-nas, que admiro. Mas, antes de tudo, há o medo. Ser aluna era tão confortável, quase quente e macio, como é ser trabalhadora? Mal sei ser universitária, espero aprender ao fim desses quatro anos de faculdade, mas quando é que vou aprender a fazer a tal da carreira? E que carreira, pelamor? Existem tantas!

Tenho um professor que constantemente nos lembra em sala de aula que a universidade nasceu como um lugar destinado a cultivar o conhecimento. Bonito isso, não? Por que diabos eu estou na universidade para aprender um tal de ofício no qual trabalhar, então? O mesmo professor, que dá aula na porra da universidade, diz que as carreiras são todas alienadas, condicionadas, que a gente mal têm controle sobre o que produz através de nosso trabalho... A gente resiste, discute, mas lá no fundo morre de medo de admitir que tem um quê de verdade nessa afirmação. Dá uma vontade de perguntar por que ele está dando aula, sabe?

"Meu senhor, por que é então que o senhor escolheu fazer carreira acadêmica, se a universidade já não é como o senhor acha que deveria ser, e se carreiras são, quase sempre, sinônimo de alienação?" Tenho raiva dele, e o admiro. Sobretudo a carreira que ele fez, na mesma profissão que acho que escolhi. Estranho isso, não? Como pessoa, não sei nada sobre ele, mas deconfio que se soubesse, ele não seria das minhas pessoas preferidas. Quantas contradições... e achei que já estava acostumada a elas; a vida têm tantas!

Talvez a grande questão seja outra: Por que é que admiro a carreira do cara que diz que carreiras não são as coisas mais legais do mundo? Trabalhar não deve ser a coisa mais legal do mundo mesmo, mas quem sabe? E se eu acabar admirando a minha carreira? Será? Mas estudar é legal, eu sempre fui estudante, e olha só, estou aqui, feliz e sadia. Não posso estudar a vida toda, não? Quem me conhece talvez pense algo como "Que é isso? E você lá é disciplinada e estudiosa?" ou "E a balada de sábado, não vai mais rolar?".
É, muitas contradições. A questão, seja lá qual for, permanece sem resposta.

Isso me lembra um outro filme. Beleza Roubada. Pelas lentes de Bertolucci, Liv Tyler vai à Toscana e descobre uma solução, uma resposta; para uma pergunta. No pacote, vêm outros milhares de mistérios. Toda vez que chego ao final desse filme me pego pensando quase sempre a mesma coisa, comovida nem sei bem com o quê: "que bonito isso". Isso o quê? Também não consigo explicar, acho. Mas pode ser apenas que não queria explicar mesmo. Vai saber.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

"Sob a lua, num velho trapiche abandonado..."

Saudades de Pedro Bala e da Bahia vadia e irresistível de Jorge Amado.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Michael e Eu

Afinal, o que diabos eu teria a ver com ele, não é mesmo? Com meus atuais 20 anos, tão pequeninos comparados com essa vida longa, distante e quase fantástica que ele parece ter vivido antes de mim. Quando nasci ele ainda vivia, pelo que sei. Lembro-me de uma jaqueta dourada, num show, e uma melodia que nunca me saiu da memória. Lembro, também, de um toco de gente (eu), vestido de rosa, tentando imitar um certo passo de dança embaixo da escada da minha ensolarada casa.

No mais, cresci sem notá-lo por algum tempo, mas não muito. Ouvi Billie Jean uma vez, e era tudo que eu precisava ( e quem não precisa de Billie Jean?), e minha mãe, ouvindo comigo, contou-me a delícia que foi descobrir essa música absolutamente incrível em 1983, quando até o chão acendia para ele passar.

Quando a ouvi, já nos anos 2000, não. Seu chão, seu mundo: cinzas, escuros, em contraste com sua pele agora branca. Apagaram Michael Jackson. (Dentro de mim, o toquinho vestido de rosa ainda pergunta como é que alguém poderia apagar a jaqueta dourada tão brilhante!) Nas palavras do jornalista Gay Talese, a imprensa norte-americana, e desconfio que muitas outras: mataram-no, condenaram-no à pedofilia, da qual os tribunais, por sinal, absolveram-no... Condenaram-no não somente à excentricidade, que não é em si um defeito, mas ao isolamento, num tom quase acusatório, como se a esolha fosse dele.

Nessas mesmas circunstâncias, Michael foi encontrado morto e houve, então, aquele funeral dez vezes mais assustador do que o clipe Thriller (do qual não enjôo, só para constar). O tal do showneral. Se, enquanto vivia, transformaram-no numa figura morimbunda, o funeral foi sua ressureição duvidosa e, em minha opinião pessoal, de mau gosto. Não que assistir a Stevie Wonder tocar seja desagradável, mas... Alguém mais ficou com uma sensação incômoda no estômago de poder acompanhar o funeral de Michael Jackson de qualquer lugar no mundo?

"É o mundo globalizado", algém vai dizer, eu sei, e a há uma parte de mim que quer acreditar que foi a melhor maneira de nos despedirmos dele. O Rei do POP mereceria um funeral POP. Mas sempre me pego pensando em como não houve despedida em seu primeiro enterro. Mataram quem Michael era, a eterna criança, o talento indiscutível e irresistível, sem qualquer cerimÔnia. O ídolo de Billie Jean tornou-se o pedófilo carente e assustadoramente insatisfeito com sua aparência.

É claro que não sou capaz de julgar e de decidir sobre sua inocência, mas, por isso mesmo pergunto: quem lhe deu tal setença o era? A mesma sociedade carente, obcecada pela aparência, insegura, continuamente insatisfeita, que despediu-se dele de forma quase tão adorável e incomum quanto ele? Também me pergunto se Michael Jackson não era somente um retrato fiel do que somos.

Essa idéia me assusta, mas a verdade é que sua morte me assustou e marcou profundamente. Talvez seja a lembrança que tenho ao pé da escada, ao som da melodia que agora, depois de sua morte, reconheci na sensacional Black or White. Ou o sorriso da minha mãe todas as vezes que ela ouve Billie Jean (e são tantas!). Mais que isso, acredito que Michael Jackson escancarou através de si essa faceta do nosso mundo que todos conhecem e ninguém que revelar. Quantos, como eu, não se sentiram carentes e desamparados com a notícia de sua morte?

Talvez acreditássemos que Michael jamais fosse morrer, e talvez a figura esdrúxula que ele se tornou seja resultado de sua tentativa de não partir jamais. Posso imaginar sua dor durante seus últimos anos de vida; anos de ostracismo. Ao menos sua morte lhe garantiu isso: duvido que alguém vá esquecê-lo, independente da forma como será lembrado por cada um.

Quanto a mim, guardo com profundo carinho essas e outras poucas memórias do rei do POP. O talento genuíno, a música dançante, a jaqueta dourada, a voz que julguei fina demais nas músicas do Jackson 5, e, por fim, a suavidade de seus passos, mas sobretudo de seu sorriso, ao executar o famoso moonwalk.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Dançando

Ela caiu como que de propósito. E era de propósito. Sentada, assintindo, sentindo, eu caí junto. Subiu e riu. Eu? Sorri. Dançou, dançou, dançou. Dançou tudo: dor, medo, alegria, prazer e mais. Contagiou a todos.

É que o prazer era palpável. Assisti-la dançando tudo tão lindo. O maior prazer de todos foi mesmo ver o prazer dela em dançar para nós ali. Esse era o tal do prazer palpável, e, claro, dançável. Poder dançar como forma de se expressar... Eu acho isso lindo.