quarta-feira, 22 de julho de 2009

Michael e Eu

Afinal, o que diabos eu teria a ver com ele, não é mesmo? Com meus atuais 20 anos, tão pequeninos comparados com essa vida longa, distante e quase fantástica que ele parece ter vivido antes de mim. Quando nasci ele ainda vivia, pelo que sei. Lembro-me de uma jaqueta dourada, num show, e uma melodia que nunca me saiu da memória. Lembro, também, de um toco de gente (eu), vestido de rosa, tentando imitar um certo passo de dança embaixo da escada da minha ensolarada casa.

No mais, cresci sem notá-lo por algum tempo, mas não muito. Ouvi Billie Jean uma vez, e era tudo que eu precisava ( e quem não precisa de Billie Jean?), e minha mãe, ouvindo comigo, contou-me a delícia que foi descobrir essa música absolutamente incrível em 1983, quando até o chão acendia para ele passar.

Quando a ouvi, já nos anos 2000, não. Seu chão, seu mundo: cinzas, escuros, em contraste com sua pele agora branca. Apagaram Michael Jackson. (Dentro de mim, o toquinho vestido de rosa ainda pergunta como é que alguém poderia apagar a jaqueta dourada tão brilhante!) Nas palavras do jornalista Gay Talese, a imprensa norte-americana, e desconfio que muitas outras: mataram-no, condenaram-no à pedofilia, da qual os tribunais, por sinal, absolveram-no... Condenaram-no não somente à excentricidade, que não é em si um defeito, mas ao isolamento, num tom quase acusatório, como se a esolha fosse dele.

Nessas mesmas circunstâncias, Michael foi encontrado morto e houve, então, aquele funeral dez vezes mais assustador do que o clipe Thriller (do qual não enjôo, só para constar). O tal do showneral. Se, enquanto vivia, transformaram-no numa figura morimbunda, o funeral foi sua ressureição duvidosa e, em minha opinião pessoal, de mau gosto. Não que assistir a Stevie Wonder tocar seja desagradável, mas... Alguém mais ficou com uma sensação incômoda no estômago de poder acompanhar o funeral de Michael Jackson de qualquer lugar no mundo?

"É o mundo globalizado", algém vai dizer, eu sei, e a há uma parte de mim que quer acreditar que foi a melhor maneira de nos despedirmos dele. O Rei do POP mereceria um funeral POP. Mas sempre me pego pensando em como não houve despedida em seu primeiro enterro. Mataram quem Michael era, a eterna criança, o talento indiscutível e irresistível, sem qualquer cerimÔnia. O ídolo de Billie Jean tornou-se o pedófilo carente e assustadoramente insatisfeito com sua aparência.

É claro que não sou capaz de julgar e de decidir sobre sua inocência, mas, por isso mesmo pergunto: quem lhe deu tal setença o era? A mesma sociedade carente, obcecada pela aparência, insegura, continuamente insatisfeita, que despediu-se dele de forma quase tão adorável e incomum quanto ele? Também me pergunto se Michael Jackson não era somente um retrato fiel do que somos.

Essa idéia me assusta, mas a verdade é que sua morte me assustou e marcou profundamente. Talvez seja a lembrança que tenho ao pé da escada, ao som da melodia que agora, depois de sua morte, reconheci na sensacional Black or White. Ou o sorriso da minha mãe todas as vezes que ela ouve Billie Jean (e são tantas!). Mais que isso, acredito que Michael Jackson escancarou através de si essa faceta do nosso mundo que todos conhecem e ninguém que revelar. Quantos, como eu, não se sentiram carentes e desamparados com a notícia de sua morte?

Talvez acreditássemos que Michael jamais fosse morrer, e talvez a figura esdrúxula que ele se tornou seja resultado de sua tentativa de não partir jamais. Posso imaginar sua dor durante seus últimos anos de vida; anos de ostracismo. Ao menos sua morte lhe garantiu isso: duvido que alguém vá esquecê-lo, independente da forma como será lembrado por cada um.

Quanto a mim, guardo com profundo carinho essas e outras poucas memórias do rei do POP. O talento genuíno, a música dançante, a jaqueta dourada, a voz que julguei fina demais nas músicas do Jackson 5, e, por fim, a suavidade de seus passos, mas sobretudo de seu sorriso, ao executar o famoso moonwalk.

Um comentário:

Heloisa disse...

Essa menina vai longe!!!! Vou acompanhar seus passos, sei que vou aprender muito sobre cinema, música, show, dança, etc...Bia continue escrevendo, por favor, precisamos de gente assim. Beijo, Heloisa